Era meia-noite e com 6 anos, estava eu enrolado a um cobertor com uma fatia de pão alentejano barrada com camadas e camadas de manteiga. Foi a primeira vez que Nightmare on Elm Street invadiu a tv portuguesa.
Estranho ao que eu poderia pensar, não tive pesadelos, tão pouco entendi o filme na altura. Estava tão assustado que me escondia debaixo do cobertor regularmente e só uma memoria ficou intimamente ligada a esse momento. Quando Freddy, aparece pela primeira vez com os braços gigantescos a roçar as paredes fazendo aquele som arrepiante com as garras. Cada vez que revejo essa cena lembro-me do pão, do cobertor e do meu pânico desse momento.
Quando tinha 15 ou 16 anos, redescobri o Pesadelo em Elm Street. Redescobri não só o primeiro, mas vários que se seguiram. E fiquei de certo modo fã, da saga. Foi através dela que descobri o Sexta-Feira 13, O Massacre no Texas ou mesmo o excepcional Halloween de John Carpenter. A obra-prima de Wes Craven, abriu-me as portas para o cinema de terror.
Nestes últimos dois dias estive doente e deitado no sofá, acabei por me decidir a rever filmes, de modo a que revi todos os filmes da saga Nightmare on Elm Street. Comecei no primeiro e só me falta ver o Freddy Vs Jason, para acabar com a saga. Decidi ainda enfermo, fazer a critica a um dos melhores filmes do género que já alguma vez vi.
Este filme esteve para…não ser! Wes Craven teve uma ideia maluca, sobre um desgraçado queimado que andava a matar e a torturar criancinhas nos sonhos das mesmas. Ninguém pegou no argumento escrito por Craven. Vivia-se uma altura em que o cinema de Horror, estava voltado para uma vertente muito menos fantástica e mais real. Sexta-Feira 13, antes do período em que Jason dominou a saga, era sobre uma mulher que procurava vingança. Por seu turno Michael Myers era apenas um paciente fugido de um hospício que andava atrás da irmã. Ninguém se atreveu a pegar no argumento. Ninguém excepto, Bob Shaye. Bob Shaye, da New Line Cinema, foi a única pessoa para além de Wes Craven com a visão e o acreditar que este filme seria um sucesso. A New Line Cinema, na altura completamente falida, era apenas um distribuidor de filmes e foi aqui que teve a sua grande sorte. Sorte, pois a Paramount não quis comprar os direitos do filme. Shaye ainda diz hoje, que foi mesmo obra de Deus o facto de não conseguir vender o filme. Salvou assim a empresa da ruína.
Ao contrário do que se pensa, o trabalho em volta da figura de Freddy, o envolvimento da personagem (pelo menos no que ele era neste filme), a própria escolha das cores da camisola, foram todas estudadas ao milímetro por Wes Craven. Não foi um filme pensado às 3 pancadas, nem sequer era suposto ter sequela, quanto mais saga. Há vários mitos sobre a origem desta personagem, pelo que li em entrevistas de Craven e em documentários que vi, Freddy tem duas origens. O nome surge de um miúdo rufia que lhe fazia o espancamento habitual que existe na história de qualquer norte-americano: há sempre uma criatura qualquer na escola que bate em toda a gente, esse sujeito tinha o nome de Frederick, pelo que deu origem ao nome da personagem. A segunda “fonte de origem” foi um velho vagabundo com um “chapéu” que o ficou a fitar durante minutos a fio, quando ele era uma criança e lhe pregou um cagaço do caraças! O velho tinha um ar extremamente queimado.
A escolha por Robert Englund para Freddy não foi fácil, Wes Craven queria alguém mais velho para fazer o papel, mas foi no fundo a persistência de Robert que o fez convencer. Para o papel de Nancy (a heroína do filme) a escolha teria de recair sobre alguém que passasse por uma rapariga típica americana, a babysitter em quem toda a gente confia. Estiveram no casting nomes como Demi Moore ou Courtney Cox, mas quem foi escolhida foi Heather Langenkamp. É sem sombra de dúvida a inimiga de Freddy mais adorada de todos os filmes. Curiosamente este é o primeiro filme desse colosso do cinema: Johnny Depp!
Após revisionar este filme, não consigo deixar de me apaixonar novamente por ele. Temos aqui uma obra-prima, que é genuinamente assustadora e brilhante. A forma como Craven (que o filmou em 30 dias) conjugou a escuridão e desenhou esta batalha entre o bem e o mal é inédita (era, até então).
Uma amiga de Nancy, está a ser perseguida em sonhos. Com medo de dormir sozinha convida Nancy para passar a noite com ela. Nancy, mais o namorado Glenn (Depp) vão passar a noite com a amiga Tina e em conversa apercebem-se que todos sonham com a mesma personagem misteriosa, horrivelmente queimado, com uma camisola às riscas e com uma luva com garras na sua mão direita. Nessa noite a dormir com o namorado (que entretanto tinha chegado), Tina é morta por esse “ser” no seu sonho. O sonho é transposto para a realidade e Tina morre na vida real também. É daqui em diante que Nancy, vai ter de enfrentar o seu maior desafio. E…
E.. vocês vão ter de ver o filme. É dos melhores filmes de horror que existem. E neste género… temo dizer que só o Halloween o bata… Mas também é só a minha opinião!
10/10

P.S. Sobre a luva e a sua origem falarei mais tarde… Isto é… se chegar a acordar…